Como iniciou o CLJ

          Na igreja São Pedro, os padres tínham um grupo de uns 60 crismandos. Era uma esperança para a Igreja. Eu como vigário e Mons. Atílio Fontana como pároco, pessoalmente preparamos bem os encontros de crisma. Os jovens estudavam as matérias, sabiam os textos, mas não havia forma de levá-los de volta à vivência cristã. Conheciam os conteúdos da fé, mas não eram capazes de transformá-los em vivência prática.

          Em maio daquele ano de 1974, junto com a Ir. Jocélia Scherer e com alguns jovens do Emaús, começamos a preparar um “retiro de crismandos”. Colocamos algumas técnicas do Emaús, com músicas próprias, com monitores de grupos e a participação de um casal.

          Nos dias 14 e 15 de julho de 1974, com 19 jovens, oito monitores, a Ir. Jocélia e um casal, nos dirigimos à Casa Medianeira para o “retiro de crismandos”. Seria um retiro centralizado na pessoa de Jesus Cristo: partindo da realidade do mundo, da realidade do jovem, apresentaríamos Jesus Cristo, com a sua Igreja e os seus sacramentos e, à luz desta verdade, entraríamos para a realidade da família e concluiríamos com a apresentação de um ideal jovem, num grupo paroquial.

          Tínhamos alguns esquemas em uma pasta improvisada, um coordenador jovem, com vários bilhetes, mas sem um roteiro fixo e nem mesmo com horário claramente estabelecido. Tínhamos um objetivo claro: apresentar um Cristo capaz de fascinar os jovens e atraí-los para o seu caminho. Tudo correu normalmente, até que veio a palestra sobre confissão e a grande surpresa: todos foram confessar-se. Veio a “missa catequética” e a juventude comungando, com alegria, emoção e fé. Aquela janta, servida pelas 11 horas da noite, tinha um sabor todo especial. Estava claro que era este o caminho. Fizemos uma reunião de monitores e todos estavam de acordo: este é o caminho para a juventude de hoje, especialmente para os jovens depois da crisma. 

          No dia seguinte, apresentamos a família e a possibilidade de fundar um novo grupo de jovens na paróquia São Pedro. Todos estavam empolgados. Mas, os jovens queriam fazer novos retiros com esta mesma metodologia. Fizemos um trabalho em comunidades, com a pergunta: como é que vocês chamariam um tal retiro? Entre muitas sugestões, apareceu uma: CLJ = Curso de Liderança Juvenil. Posto no quadro, junto com outras sugestões, foi feita a votação e não deu outra. Estava criado o CLJ.

          Os jovens queriam logo fazer outro “retiro” destes, para os colegas da crisma que não tinham apostado no primeiro. Mas, foi então colocado, com muita clareza, que o segundo CLJ só seria feito em novembro, se até lá todo o grupo perseverasse, nas reuniões de todos os sábados, ocasião em que se faria a revisão de vida e o aprofundamento do estudo.

          Foi uma beleza, todos os sábados estavam lá os 19 jovens, mais os monitores vindos do Emaús, o casal Raabe e Leda, mais a Ir. Jocélia. As reuniões eram no sábado de tarde. Havia uma parte da reunião em que se preparava a missa de domingo. Com muito empenho, foi preparado o segundo CLJ, para os dias 13, 14 e 15 de novembro daquele mesmo ano de 1974. Após várias e demoradas reuniões preparatórias, pois era necessário montar todos os esquemas de palestras e elaborar todas as intervenções do coordenador, definir as funções do casal e do folclore. Enfim veio a data tão esperada.

          Quando encostou o ônibus, lá nos fundos da igreja São Pedro, parecia início de uma revolução. Gente de todos os lados. Lá estavam os 55 jovens inscritos, com seus pais, familiares e um número incalculável de curiosos. Todos queriam saber o que estava acontecendo. O segundo CLJ foi espetacular. Levávamos uma monitora, quase formada em Psicologia (Luiza Rizzo). Ela deveria apresentar as alterações psicológicas do adolescente e ela deveria observar tudo o que estava acontecendo para ver se não estávamos contrariando o que ela aprendia na faculdade.

          Foi um curso fora-de-série. No domingo à noite “chegada” na São Pedro. Foi feito no salão paroquial. Estava lotado. Todos os familiares daqueles 55 jovens, os colegas do primeiro e muitos curiosos. E a continuidade foi melhor ainda. Muitos jovens já estavam em férias e começaram a vir à missa todos os dias. No domingo seguinte, nosso grupo estava assumindo oficialmente a missa das 11 horas. Era a missa dos “dorminhocos”. A maioria chegava atrasada. Mas, em pouco tempo, se tornou a grande missa da paróquia. Era a missa dos jovens. Os violões eram uma novidade na liturgia. Falava-se até em “Missa iê, iê, iê...”

          A partir de então, os alunos dos colégios da redondeza começaram a se interessar. Naquele final de ano, os nossos jovens começaram a ir nas escolas e falar aos colegas jovens sobre a experiência vivida a partir de um encontro com Jesus Cristo. Era o assunto em todas as rodas e em todas as salas de aula. Vieram aquelas férias e o grupo perseverando mesmo espalhados pelas praias do litoral norte. Faziam reuniões semanais em Tramandaí, em Capão da Canoa e em Atlântida. Não se perdeu ninguém naquelas férias. Todos voltaram em março, com mais entusiasmo ainda. Todos estavam esperando o terceiro CLJ, logo marcado para o mês de abril. A fama se espalhou pela cidade. 

 

O CLJ – movimento arquidiocesano
          O Pe. Severino Brum, pároco da Sagrada Família, na Cidade Baixa, que há anos estava tentando uma pastoral para os jovens, com iniciativas espetaculares, ficou sabendo e queria participar do terceiro CLJ. Queria apenas observar e levar um grupo de 20 jovens e um casal de tios.

          Fizemos várias reuniões. Seria preciso falar com os bispos. Pe. Severino falou com Dom Antonio e com o nos Arcebispo. Era uma novidade radical em Porto Alegre.

          Mas, no final de nosso encontro, ele me falou: “Pe. Zeno, continue, neste trabalho, com a minha benção. Se este movimento vem de Deus, vai progredir e dele surgirão muitas vocações para o sacerdócio e a vida religiosa; se não vem de Deus, em pouco tempo vamos acabar com isto, antes que seja tarde”. 

          Após uma longa reunião com Dom Antonio, participando ainda o Pe. Severino, o casal José Carlos e Eunice Monteiro, Ir. Jocélia e três ou quatro jovens, o CLJ foi reconhecido como Movimento arquidiocesano, aberto para as paróquias que o quisessem implantar. Era hora de organizar tudo, preparar as pastas, redigir os esquemas de palestras, montar o curso de dirigentes e oficializar toda a organização. Muito importante nesta hora foi o trabalho do jovem João Amâncio da Costa Filho que morava conosco na São Pedro.

          Tínhamos uma certeza: o CLJ será um Curso de descobertas. Seria para jovens adolescentes que vivem a frase das grandes descobertas de sua vida. Então o curso foi organizado em forma de cinco descobertas.

  • 1º O mundo: com seus problemas, seus valores e desvalores. Este é o mundo em que nós vivemos e esta fase está centralizada na palestra “O dia de hoje”.
  • 2º O jovem: em uma fase de profundas transformações biológicas e psicológicas, atraído para um mundo de ídolos e máscaras.
  • 3º Jesus Cristo: verdadeiro Deus e verdadeiro homem, o Pontífice, isto é, aquele que faz a ponte que liga os homens a Deus. Diante de Cristo, o jovem dá a sua resposta pela vivência da fé, assumindo os sacramentos, especialmente a confissão e a comunhão.
  • 4º A família: o lugar privilegiado para uma educação integral, mas também o ambiente muitas vezes cheio de conflitos e difícil. Mas, na família é possível acontecer uma transformação rápida e profunda, quando existe o diálogo e a disposição de pais e filhos[3].
  • 5º A Igreja: o povo de Deus, onde o jovem tem vez e voz. O jovem é Igreja e cabe a ele apresentar a “face jovem da Igreja, através de um grupo atuante e transformador. 

          Com estes cinco pilares, o CLJ foi se firmando como “momento”, enquanto curso de apenas três dias, e como “movimento”, enquanto grupo fixo e estável, que vai trabalhando como pastoral de jovens, onde sempre estava presente a grande frase de Paulo VI: “É preciso que os jovens se tornem apóstolos de jovens”. Em pouco tempo, o CLJ foi se espalhando pelas paróquias de Porto Alegre, depois foi para as dioceses do interior e hoje está espalhado por grande parte do Rio Grande do Sul, e já recebendo pedidos para ser implantado em outros estados e até no Uruguai.

 

As Diretrizes e Bases do CLJ

          Foi em 1976 que nós elaboramos a primeira edição das Diretrizes e Bases do CLJ. Foi um trabalho intensivo de um Secretariado Arquidiocesano, onde além dos padres estavam o Samuel Zimmermann, o Rubem Carlos Raabe e o Eno Dias de Castro. Eram homens que tinham uma preocupação eclesial extraordinária. Queriam que o Movimento se firmasse, como movimento de Igreja, a serviço da pastoral da juventude.

          Era regra básica que o CLJ só poderia ser introduzido numa diocese se o pedido partisse do Bispo e se ele colocasse um padre à disposição para acompanhar e ser o Diretor Espiritual Diocesano. Estava muita clara a compreensão de que haveria o momento-CLJ (o Curso de três dias) e o movimento-CLJ que era toda a fase da perseverança e toda a continuidade do trabalho, articulado em duas frentes. Era o binômio do CLJ, o centro de tudo o que acontecia na paróquia em que o CLJ estava implantado. Era a reunião de grupo e o trabalho dos departamentos.

          A reunião de grupo seria o lugar da revisão de vida, com a folha de vivência, onde acontecia todo o aprofundamento da vivência cristã, em parte baseado no que se fazia antes na Ação Católica, com o ver, o julgar e o agir. O grupo era formado pelas jovens com uma tia e pelos jovens com um tio. Lá era o lugar onde os jovens poderiam abrir o coração, na certeza de que nada sairia do grupo. Usava-se a expressão: “estamos em reunião de grupo”, baseado nos cinco “S”: solidariedade, sinceridade, seriedade, sigilo e semanal.

          Os departamentos eram o lugar da ação, onde os jovens deveriam atuar e prestar seu serviço ao grupo e à comunidade. O mais importante departamento era o litúrgico, ao qual cabia organizar a missa do final de semana, sempre o cartão de visita do grupo. Outro era o departamento de folclore, outro o cultural, outro era o departamento de promoção humana, o departamento de pré (que preparava os candidatos para o próximo curso) e o departamento de pós (ao qual cabia organizar os encontros dos sábados à tarde). Os departamentos podiam ser criados, segundo as necessidades locais. Havia paróquias em que funcionava muito o Departamento de Teatro, com belíssimas encenações. Era regra que o coordenador do Secretariado Diocesano ou Paroquial fosse sempre um jovem. Mas, o órgão máximo de decisões estava sempre no Conselho de Padres, dos quais dependiam todas as importantes alterações a serem introduzidas no momento ou no movimento CLJ.

 

A reformulação das Diretrizes e Bases

          Foi em 1985,  havia pouca gente refletindo sobre este crescimento e sobre a perseverança desta juventude. Havia sérios problemas com os jovens mais antigos do CLJ, alguns já formados na Universidade, que continuavam nos grupos paroquiais, não dando muita chance para o surgimento de novas lideranças. Foi então necessário formar um grupo de reflexão e realizar uma reformulação nas Diretrizes e Bases do CLJ. Toda a reflexão começou com um grupo de jovens, mais adultos e um casal de tios. As idéias foram levadas ao Secretariado Arquidiocesano e depois introduzidos nos grupos paroquiais.

          A principal modificação introduzida foi a criação do CLJ1, CLJ2 e o CLJ3. Por CLJ1 entendia-se o CLJ-Momento, o Curso de três dias. Era feito depois de uma longa preparação, isto é, após uma séria caminhada dos jovens no Pré-CLJ. Eram cerca de seis meses que o jovem deveria freqüentar o Pré, para depois poder fazer o CLJ1, isto é, o curso de três dias. Com um ano de comprovada perseverança em reunião de grupo e trabalho em departamento, o jovem poderia agora participar do CLJ2, um Curso de três dias, onde aprendiam, sobretudo, a espiritualidade do movimento, a espiritualidade do trabalho em CLJ, algumas técnicas básicas, para ser monitor, integrante da mesa dirigente ou dar palestra. Além disso, eram abordados os temas bíblicos, com uma introdução à leitura dos Salmos, Profetas, Novo Testamento, Evangelhos, Atos e Cartas Paulinas. Eram cursos de grande aprofundamento.

          Feito o CLJ2, jovem poderia então trabalhar em cursos futuros, desde que perseverasse todos os sábados e desde que estivesse ativamente atuando num departamento.

          Passados, mais dois anos, depois de participar do CLJ2, o jovem poderia ser convidado a fazer o CLJ3, isto é, a escola que formava propriamente os dirigentes máximos, os Coordenadores e Bases do CLJ. Lá então os jovens estudavam a História da Igreja, os seus diferentes momentos de luta e sofrimento, os grandes personagens da história e a doutrina social da Igreja. Pensávamos preparar os jovens para os desafios da Universidade. Eles deveriam estar prontos para poder rebater os argumentos apresentados contra a Igreja e os seus ensinamentos.
 

6. O CLJ hoje

          Atualmente o CLJ está implantado em seis dioceses: Porto Alegre, Novo Hamburgo, Osório, Passo Fundo, Frederico Westphalen e Vacaria. Devem existir ainda sinais da presença do CLJ em Uruguaiana, Alegrete, Santa Maria e Santana do Livramento e Quarai. Já são mais de 300 paróquias onde funcionam os grupos animados de jovens, com a participação de casais adultos e com uma vivência cristã, voltada para a evangelização da juventude. Já foram realizados mais de 700 cursos, com a participação de mais de 30 mil jovens que já foram atingidos.

          Em nossas dioceses, já temos vários sacerdotes provenientes das fileiras do CLJ e nos seminários temos ainda grandes esperanças de vocações, nascidas em nosso meio. Em cada diocese, o CLJ tem as suas características peculiares, de acordo com a realidade local. Mas, no essencial, o CLJ é o mesmo, em todos os recantos deste Rio Grande, até mesmo nas suas dificuldades de adaptação à pastoral da juventude e às canções litúrgicas que as comunidades cantam. No entanto, o que foi assumido há quase trinta anos, como Hino do CLJ, se concretiza em toda a parte: “Unidos estamos aqui, unidos queremos ficar... é bela a vida que se dá... É preciso que o mundo seja um pouco melhor porque nele eu vivi e por ele tu passastes meu irmão”.

          O certo é que o CLJ até hoje só nos deu alegrias e está implantado como uma grande esperança para a Igreja. É claro que há padres e bispos mais empolgados e outros menos empolgados com o CLJ, mas uma coisa é certa: “Nas paróquias onde está o CLJ, lá atuam jovens e mais jovens... e lá onde não está o CLJ, há uma enorme carência de jovens na Igreja e na participação da liturgia e no canto”. 


Fonte: Adaptadação dos arquivos da arquidiocese de Porto Alegre

 

 

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